quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Uma ficção interdisciplinar



"É preciso deixá-la agir por um momento, deixar o pedal prolongar o som, isto é, fazer um pastiche voluntário, para poder, depois disso, voltar a ser original, e não fazer durante toda a vida um pastiche involutário."

(Marcel Proust, A voz narrativa)



Cinco anos se passaram até que o leitor potiguar (e por que não dizer também o leitor brasileiro?) pudesse voltar a desfrutar as novas páginas de uma ficção interdisciplinar como a do escritor e professor de Filosofia Pablo Capistrano, detentor de um estilo único, por vezes até alucinante, para quem não está acostumado à sua maneira de fazer literatura contemporânea. O sucesso adquirido com a sua primeira tentativa em Pequenas catástrofes, romance de estreia no cenário das letras potiguares, lhe rendeu não só o reconhecimento local, como também o nacional a partir da publicação pela editora Rocco em 2006. Agora, Pablo retorna ao nosso campo de visão com um novo trabalho que dá continuidade à prosa anterior e as suas ideias e delírios filosóficos, metafísicos e científicos com o livro de contos É preciso ter sorte quando se está em guerra (Ed. Jovens escribas, 2011).

O título é bastante esquisito ao primeiro olhar, e a sensação de desquilíbrio da realidade e do mundo invade logo quem começa a percorrer a linha de ações que se desenvolve nos três diferentes contos, que, apesar de relatarem histórias distintas, parecem perseguir um mesmo projeto: a criação de um ser humano mais sofisticado, capaz de substituir o atual. É imprescindível não se relacionar esse dado do livro com a proposta de Pequenas catástrofes, texto no qual o autor, através de uma linguagem cinematográfica e característica da hodierna ficção, retoma essa temática que sempre o ateve às questões do futuro da humanidade, com a ajuda de leituras sobre Nietzsche, Aristóteles e, do seu preferido, o filósofo alemão Ludwing Wittgenstein. Os contos versam mais sobre a existência do homem, principalmente o valor que dá a sua identidade social, o amor, a ciência, o geneticismo qual ferramenta para se saber a composição biológica e química do ser humano etc. Tudo está voltado à gênese mundial.

No primeiro conto, A escada de Jacó, o leitor se depara com uma narrativa girando em torno de uma preocupação do narrador: o que represento para a sociedade em que estou inserido? E essa angústia cresce mais, assim que descobre que outro poderá tomar o seu lugar; um outro ser que usufrui do mesmo conhecimento e do mesmo prestígio social. Tanto que o protagonista-narrador acaba assumindo a identidade do seu rival ao término do conto. O interessante é a forma como o personagem faz para chegar até o seu desafeto (como ele mesmo prefere chamar) e eliminá-lo de sua própria vida —acessando sites de relacionamento e de informações pela internet, dentre os quais o orkut e o google. Aí, teremos uma interface entre os gêneros discursivos ferramentas da web e o conto de ficção, pertencente ao discurso literário. De certa forma, essa técnica complementa ambos os discursos, tornando o texto mais atrativo, sobretudo para as novas gerações tão ligadas à net, aos iphones, facebooks, netbooks, twitters do cotidiano. Tais termos também estão presentes no vocabulário direto, dinâmico, popular e juvenil do narrador de dois dos contos, o que acaba direcionando os assuntos interligados para um público cada vez mais juvenil, mas sem que possam ser refletidos pelo público adulto.

Tanto isso é verdade que nos emociona a leitura do segundo conto Saudades do amor, com o subtítulo uma história para garotos, no qual o narrador vai nos apresentar um retrato da juventude nos anos 90, uma época cuja marca principal estará no surgimento de novos ritmos do rock pop internacional, trazendo mensagens remanescentes do que foi a experiência de ser jovem nos anos 80, década em que se teve mais exemplos de desilusão e morgasmo social. Os anos 90 representaram o momento de organização de valores, referenciais acerca da adolescência e do papel do jovem, outrossim, numa sociedade em fase de reestruturação política. Todas as sobras ficaram nos 90. E Rudá, personagem principal do conto, sente essas transformações rápidas quando tenta entender qual o sentido do amor, um sentimento tão universal, mas, ao mesmo tempo, sempre em mudança conforme o contexto histórico de uma época. O amor aí vai enfrentar um novo olhar crítico do personagem, que ainda não conseguiu atualizá-lo em si mesmo. Só o fazendo ao leitor ao término da narrativa. De qualquer maneira, o conceito do amor, nesse tempo em que a história é narrada, não deixa de ter uma meditação nos conceitos de Beleza primordialmente deliberados por Platão em seu banquete socrático e perfeitamente dominados pelo autor do livro aqui analisado. A comprovação está nas inúmeras idealizações que Rudá faz sobre Ela, sua musa tão cobiçada, comparando-a até a uma deusa de vestido azul. Depois disso, o autor vai discorrer sobre os vários conceitos do amor e até mesmo sobre a origem da palavra a partir do grego Eros. Tal estratégia será útil para que ao final da história possamos perceber o choque de gerações com a decisão de Ela, a personagem dos sonhos de Rudá, ter o discernimento de encarar o amor como um sentimento também próprio das pessoas que se interessam por outras do mesmo sexo. A remanescência de novos valores morais começava a ganhar espaço, mesmo que de maneira polêmica, já nos 90, sem mais a opressão das décadas precedentes.

O misticismo é um ponto-chave na prosa de Pablo, porque enfatiza uma corrente de discussões em torno da existência humana e que passeia por questionamentos direcionados à moral do homem. Inúmeras devem ter sido as experimentações feitas pelo autor na busca de resultados para esse fim, uma vez que é perceptível em sua narrativa alusões sobre as mais variadas crenças religiosas, ritualísticas e até primitivas. O que nos faz relembrar a moral do filósofo alemão Nietzsche ao argumentar sobre o maniqueísmo dos tempos em sua obra Além do bem e do mal. É o encontrado em O sutra do girassol, último conto do livro, em que é nítida a insistência nesses apontamentos. A palavra sutra diz respeito a uma espécie de tratado indiano que, de acordo com a literatura, organiza em forma de aforismos todas as regras da moral, do rito e dos costumes. São provocações lógicas, e ao mesmo tempo complexas, sobre até que ponto o ser humano pode agir com racionalidade ou não no auge de sua essência. O girassol ligado à ideia do sutra talvez seja o único componente que sobreviveu ao estado de conturbação e brutalidade pelo qual passa o nosso planeta, já carente de ações positivas que recuperem a ética e os valores da humanidade. A cor amarela pode simbolizar, por exemplo, a amizade como um desses valores. Como falar de amizade em tempos tão competitivos e dinâmicos, nos quais parece valer a antiga máxima de Plauto: "o homem é lobo do homem"? Por coincidência, o personagem dessa terceira narrativa, Ariel, presente também em Pequenas catástrofes, mostra-se obcecado em levar adiante sua proposta de que é necessária a remodelação da raça humana ou até o seu fim para que outra raça superior possa substituí-la. Numa linguagem bastante interdisciplinar, isto é, demonstrando domínio acerca de conteúdos da área de Ciências exatas (física, astrofísica, química e genética), chegamos a deduções, às vezes até megalomaníacas do personagem, que acredita tê-las obtido a partir do instante em que se encontrava no banheiro de um bistrô, num suposto bairro elitizado da cidade, urinando durante uma tempestade magnética. Indiretamente, vamos reparar nas intenções de Ariel o mesmo projeto que o acompanhou em Pequenas catástrofes, quando, ao se deparar com o amigo e ex-colega dos tempos de escola, Max Deiman, um fotojornalista famoso, descobre que este mantém viva dentro de si mesmo a crença de que uma raça superior há de surgir na Terra. Porém, para que isso ocorra, só existe uma saída: a composição de uma droga híbrida para tornar esse sonho realidade e os problemas do planeta serem sanados. A substância química seria o Tetrapharmakon, atuante diretamente no DNA humano. Essa tese aparece em É preciso ter sorte quando se está em guerra, mas com uma outra roupagem, desta vez, atribuindo a mudança na estrutura genética ao fenômeno atmosférico. A verdadeira droga estaria assim tão alcance de nossas mãos? Seria tão fácil produzi-la? Parece que sim. Tanto que Ariel é dominado pela própria teoria, que lhe aparece em forma de outro ser inteligente, pouco visível aos seus olhos no final da história. Imbuído está nisso tudo o projeto Zarastustra, já mencionado em Pequenas catástrofes, e, pelo visto, revisado no gênero conto aqui experimentado por Pablo. Segundo este, tal projeto foi uma criação de James Ramsey que cria numa técnica que fosse capaz de pôr em prática todo o teorismo nietzscheniano acerca dos rituais de convivência do homem em seu próprio meio de vida.

Como se vê, o estilo de Pablo Capistrano ganha desdobramentos, à proporção que ensaia novos métodos de escrita ficcional e reanalisa o que já fora exposto. É inteiramente possível numa pesquisa, seja literária, seja não-literária, se oferecer uma nova óptica a respeito do objeto de investigação, sem, contudo, fugir ao tema. No caso da prosa capistraniana, é preciso muita habilidade, porque mexe-se obrigatoriamente com a linguagem, por se tratar de um texto artístico, e com o que se vai abordar nesse texto. Na passagem para um novo milênio, antigos receios do nosso porvir ainda incomodam as mentes mais brilhantes dos estudiosos de todos os campos do saber. Por que não principiar tal pertubação pela literatura? Eis que germina de nossa província uma obra que tem muito a nos ensinar com um toque sutil de originalidade o que ainda pensamos que está totalmente em nossas mãos: nosso destino.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Reminiscências

De súbito, ponho-me a ver o infinito…
Ele está longe, muito longe…Miragem.
O entardecer vai definhando entre nuvens a colorida imagem,
e o olhar não vê mais nenhuma beleza neste círculo bendito!


A nebulosa, os astros! Expansões ilusórias
fugindo à linha da imaginação
e esmerando os contornos das estradas cheias de glórias,
cavalgadas por uma pequena contemplação.


O nada não me enfraquece rente ao limiar da procura palpável
do unir-se ao etéreo, ao deleitável
espaço, impreenchível pela matéria;


pois ela é a composição da mente,
centro de todas as inconstâncias,
que se compõem e se decompõem integralmente em manhãs…

Folhas caídas

A uma amiga amada.


Ao luzente prado, exauriu-se o sonho
Que me pareceu ausente e medonho
Ao brilho de tua falta imensa,
Que o crepúsculo sangrento isenta.


Nem os teus sussurros noturnos
Trazem mais o deleite em rumores soturnos…
Oh, meu Deus! O navio corta o mar…
A tua indiferença é a insensatez do meu coração chamejante.


Pombas não galanteiam beijos lascivos,
Quais os teus, ainda presentes e quase vivos;
Acolhe-me tu a fronte junto ao seio, ó atilho dos meus olhos!…


E compungia-te desta fel partida,
Que a mim inflama-me tal mórbida ferida
Em saudades dos teus imortalizados amores.

Luci

À beldade que me floresceu às faces imaculadas. Lembras-te, professorinha, de toda a candura do autor destes versos.



Eras tu a alegria dos meus dias
Os meus doces dias que agora se acabam
E que não retornam mais.
Por mais que eu me lembre de ti,
Só me vêm efemeridades.


Nada fez meu sonho acabar
Qualquer coisa que eu pense,
Volta-me a tua imagem recordar.


Avisto um objeto, logo vejo teu rosto
Honesta, confiante
Tu estás a contemplar-me.
Há em ti uma extrema firmeza
Que acompanha a tua beleza.


Por que, Meu Deus, sois tão cruel comigo?
Por que quereis separar-me do meu amor?
Amor que se afasta de mim a cada momento,
A cada instante descrito
Por meu ser.


Vem a tristeza,
Toma conta do meu ser,
Mas logo passa
Quando em mim aporta a tua leveza
E isto ocorre por lembrar-me do teu rosto, Luci.

Pérola

A Alane Brito.


Onde está a minha menina?
Onde está meu coração?
Por que ele não responde
a voz dessa canção?
Eu espero que logo seja respondente
a carícia mais oniparente que ela é.
Esta filha querida é minha consolação
que produz o efeito e a magia acesa
de uma constelação
que nunca se extinguirá.
Mas onde está a pérola ou a mais linda jóia?
Será que ela contém
a simpatia contemplante de alguém especial
para me fazer contente?
Eu aprecio o seu jeito inteligente
de saber e viver
o amor resplandescente que eu te dou.
És, menina, a esperança,
a leve pluma
que surge da espuma
de onde emana o teu hálito perfumado.
Eu quero notar,
amar,
mostrar nessa cidade
a minha capacidade
de amar-te cada vez mais.
E os meus olhos seriam marcas molhadas
de tua paz imensa.
Vou buscar alguma emoção; porém,
onde está esta flor
que acaricia o beija-flor?
Assim, eu ouso em cantar
e me obrigam a calar.
Mas tu insistes em agüentar
os outros que te querem mandar
compreendes aos teus devedores,
por ti eu sou feliz.
Onde estás, minha menina?
Onde estás, minha amiga?
Onde estás, imperatriz?
Vem, que eu serei teu aprendiz.
Onde estás, princesa?
Onde está a tua pureza?
Me dize, onde estás?
Onde estás?

sábado, 23 de julho de 2011

Aquele baú

                                    “O Brasil é uma República Federativa

cheia de árvores e gente dizendo adeus.”

                                               (Oswald de Andrade)



“Sem trabalho eu não sou nada

Não tenho dignidade

Não sinto o meu valor

Não tenho identidade

Mas o que eu tenho é só um emprego

E um salário miserável.”

                                   (Renato Russo, Música de trabalho)


Há algumas semanas, Selma, aquela nossa empregada de tantas épocas, passou-me a tua carta que, à primeira vista, me pareceu esquisita logo que vi o quanto estava amassada; fria como minhas faces. O conteúdo provocou-me uma grande surpresa, Filipe, que não a descrevo para não te deixar mais abatido. Só quero que você saiba que durante muitos anos eu te considerei como meu único e grande amor, pois todos os pretendentes, que rodearam a casa de papai, nunca mais tornaram a me importunar após o nosso namoro, em pouco tempo transformado em compromisso sério. Lembra da noite em que você foi me cortejar? Naquela noite, você tinha me falado dos seus planos futuros: a aprovação no vestibular, o automóvel novo de fim de ano, as glicínias que decorariam a estante de vidro do nosso lar, o quadro anormal de um pintor de seu gosto: DALI…
É tudo muito forte para mim, Filipe! É como se a cena em que você abraçava os amigos fleumaticamente ainda acontecesse na minha consciência. O usado roupão de linho simples, adquirido com tanto sacrifício, cheio de máculas de cerveja, inundando de simpatia toda uma vida macilenta. Uma vez, lembro que jantamos num restaurante italiano( a culinária poética de Dante, Petrarca!…, dizia bailando por aquelas catedrais romanas e arquitetura gótica) em que, após a ceia, você me pediu em casamento e todos os clientes e empregados me felicitaram pela resposta irresistível, que me deixou completamente ruborizada. Além disso, devo salientar nestas páginas dissolutas que foi naquele momento feliz que se deu o nosso primeiro beijo, aliás, o último. Tivemos muitas discussões, Filipe; numa delas, papai quase chegou a proibir o nosso romance, ele havia implicado com o teu jeito hostil de lidar comigo, principalmente quando você bebia.

Eu entendia o porquê de tudo aquilo, ou melhor, agora entendo: era desabafo. Ficamos sem nos comunicar por alguns meses, porque você quis permanecer incomunicável temporariamente. Já me acostumara à tua reclusão anônima; minha família não ficaria a meu favor a partir do instante em que eu resolvesse te procurar; mas tenho que reconhecer: a insensibilidade é um sentimento imiscível para uma pessoa de vários encantos, de tantas esperanças. Te procurei sem tédio por diversos edifícios, praças, ruas… Sou frágil para descrições, Filipe!, isso sempre me foi doloroso, como também o foi presenciar o estado lamentável em que te achei. E você, como de costume, manteve o gesto insensato; tentei te explicar, Filipe, o quanto era importante para o mundo o teu trabalho, a tua presença para as pessoas, essencialmente para mim. Mas pela minha experiência de estudante de psicologia, pode-se fotografar o desespero de um homem de uma maneira mínima, e esse fator muitas vezes torna árida a tarefa de ajudar-te: não é para qualquer um. Mesmo assim, eu fui adiante por estima.

Devoção? Já é exagero. Há muito abandonei essas místicas, Filipe. Te amparei como poucos, te levei para o nosso apartamento em Petrópoles, pois o tínhamos alugado para nossa noite de núpcias, que, aliás, você se esqueceu, como também se esqueceu de si mesmo. Não me atrevi, intimidada, a perguntar a causa de tamanha loucura, eu estava mais preocupada em te servir. Meu espírito materno cresceu em demasia ao ponto de todas aquelas perdas se dissiparem; só tinha forças para te olhar com vigilância, e só. Por que será tão difícil manifestar o meu verdadeiro amor por você, vida? Eu francamente não sei, Filipe. E acho que jamais saberia dizer.

Talvez o ser humano seja levado a cometer coisas fora da normalidade, como defesa à própria situação depreciativa de se ajoelhar aos pés da necessidade. É, é isso! Provavelmente, você tenha o algoz da necessidade a te maltratar por querer agarrar a sensação de ter vencido a miséria, a injustiça. Afirmar com certeza seria um desafio, e até mesmo fútil, como são fúteis as formas que arrastam uma pessoa ao mais profundo precipício. A vida nos é fútil, Filipe. Porém naquela noite, em que dormíamos no apartamento, descobri os porquês de tantos martírios. Foi durante a queda de um retrato nosso( juntos, numa praia do litoral sul, apreciávamos a lua sangrenta), que eu pude acompanhar o teu sonho, ou seja, o teu delírio ¾ efeitos da depressão. Escutei: “Parem de me torturar!…Deixem-me!”; e depois: “Quero trabalhar sossegado!…”. Eram frases soltas, não conseguia entender. Adiante, você se pôs a contar minuciosamente a alegria da aprovação no vestibular, o primeiro dia de faculdade, o contentamento dos teus estudos, os teus poetas... Você se perdia em várias cenas dentro do imaginário. Houve um instante em que tua voz era uma angústia, resquício de lamúrias…Logo em seguida, senti a recomposição dos momentos de júbilo para novamente ouvir o teu suplício de condenado.

Até que você serenou e voltou ao sono profundo. Às três horas da manhã, despertei com você tendo novos pesadelos, e mais informações eu colhi a teu respeito. Parecia um medo de ser castigado por alguma coisa que não queria dividir com ninguém. E blasfemava contra o patrão desumano, o diretor, que lhe obrigava a voltar as tuas atividades e continuar recebendo ofensas dos que você chamava parasitas. Lacei todos os fatos: Filipe, você foi exonerado do cargo de mestre-escola. É certo que me dizia que amava a profissão como a mim, mas o sabor da decepção te foi bastante indiferente. E cada vez mais revoltado, denunciava a instituição onde trabalhara, senão também a maneira por que tratavam a máquina produtiva: o corpo docente. Desde o nosso primeiro contato informal de prósperos cônjuges, percebi teus princípios e métodos de fortalecer o sentimento dos justos, edificando o valor do sistema ¾ “meio de aprendizagem”. Nenhuma das teorias da psicoterapia, enquanto ciência, modificava o teu método nas relações sociais referentes a um mero discípulo. Até Lacan era a “águia de rapina” aniquilando o desejo que você preferia deitar para o plano da ignorância, sempre a me dizer: “Tolices de alguém inusitado, na prática não é assim que se procede”.

Saltou-me à memória a cena daquela noite de agonia, Filipe, em que me achei por segundos, vítima de um lunático. Ela foi-me assustadora, mas nada que uma futura especialista da mente humana não se veja controlada nessa situação.

Se me perguntarem qual foi a minha reação, meu querido, acho que nem eu mesma poderia responder. Invadiu-me a enorme onda de culpa por não te ter ajudado há tempo, Filipe, e esse pressentimento maldito é culpa que se transforma em dó. Que nada! Deixemos isso de lado, é passado. No entanto, aprendi que além da feroz máquina educacional do Estado, existe outra em dissolução: o homem e a mulher. Nenhum juros ou percentagem podem comprar a essência e o bem-estar da raça humana, e até mesmo da própria mulher, embora ela mesma se importe em visualizar tal luz em maior intensidade que o companheiro amado. Vai me desculpando, Filipe, a singela idéia, sou o cofre de todas as tuas dores. Até os estudiosos das ciências deslizam em mares de inseguranças, o que faz com que suas descobertas experimentais, às vezes sejam frágeis.

Se agora estou aqui inclinada sobre esta mesa de tantas horas noturnas de estudos teus, Filipe, contornando, condoída, letras solitárias nesta carta de amor, companheira dos nossos tempos de juventude, é para que você possa lê-la sobre a tua lápide; pois assim dará continuidade à tarefa de nos correspondermos qual antigamente. Receberei uma resposta em forma de poema, com versos metrificados à Bilac, poeta que você tanto gostava. Espero ansiosa esses versos que ainda moverão os cometas e as galáxias por milênios. Começo a derramar uma gota lacrimal dos olhos. Não se zangue caso este sinal da sensibilidade feminina dificulte em alguns trechos a leitura, é impossível conter-me à tua ausência desolada. O que vem acentuá-la é aquele baú coberto de um lençol de veludo ¾ presente de casamento!… ¾ onde estão conservados o teu diploma de formatura e alguns sapatos envernizados que papai te dera para a cerimônia. Se são galochas (meras galochas ultrapassadas!), não me disponho a vendê-las, da mesma forma que me recuso a me separar novamente de você, Filipe. São regras que determinei para mim mesma. “Disparates daquela que te terá eternamente”.

Paulo Caldas Neto

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A QUARTA PAREDE

RESUMO



Este ensaio visa discutir a construção do riso e da carnavalização na obra de Dostoievski, especialmente em Os irmãos Karamazov.



ABSTRACT



This assay aims at to argue the construction of the laugh and the carnavalização in the workmanship of Dostoievski, especially in the Karamazov brothers.





Não é de admirar-se que o universo dostoievskiano carregue em si um variedade de tipos e temas complexos, bem conflituosos: o desentendimento entre membros familiares, assassinatos violentos, parentes apaixonados pela mesma pessoa, que, na maioria das vezes, é causa do conflito e a raiz de todos os problemas sociopolíticos e culturais que não deixam de elevar a Rússia como o centro de tudo. Um mesmo tema percorre a escritura realista de Fiódor Dostoievski, o homicídio. Ele está presente tanto em Crime e Castigo, O idiota, Os demônios etc., para depois ser foco de atenção em Os irmãos Karamázov, onde se discutirá a questão do parricídio. Um filho que assassina o próprio pai, mas será o único a cometer isso ou, pelo menos, desejar tal delito?

A maior argumentação dos psicanalistas atinge o patamar do desejo pela morte do velho Karamazov em função do Complexo de Édipo freudiano sentido por Dimitri, ao conhecer o sentimento amoroso do pai por sua amada Grúchenka. Tal motivo leva, então, o leitor do romance a uma atmosfera carregada de ódio e poder. Sem dúvida, o enredo não deixa de nos sugerir um futuro confuso e sombrio a partir de todos esses problemas íntimos, que dão expressão aos estudiosos da psicanálise para que se convençam da vida neurótica dividida pelo escritor com o próprio pai, por quem não nutria bons sentimentos. Há quem aponte a epilepsia como causa de tanta obsessão por crimes contra a vida em seus romances (Freud foi o primeiro a acreditar nessa hipótese).

Na verdade, o psicologismo em Dostoiévski é carnavalizador a partir do instante em que é tratado como coisificação do homem. Isso mesmo. Para o autor, a psicologia experimental artificializa o sujeito, porque não mostra o eu em construção, mas como objeto acabado, isento de qualquer mudança. O herói dostoievskiano só existe enquanto diálogo, ou seja, sua lógica do próprio sujeito é uma complementação da lógica de um outro igual ao outro; daí, é que existem sucessivos diálogos no romance dostoievskiano, em especial em Os irmãos Karamázov. A polifonia, assim, dá substância às ideias filosóficas que os personagens constroem acerca das suas atitudes, seus conflitos internos. Um dos exemplos disso é a cena do capitão, pai de Iliúcha, e Aliócha, quando este lhe entrega a quantia de aproximadamente dez rublos. Após saber da humilhação a qual seu irmão Dimitri fez passar o militar, este tenta justificar a agressão de Iliúcha a Aliócha como resultado da condição miserável a que são socialmente submetidos.

Todo esse discurso dos personagens de Dostoiévski bebe nas fontes socráticas da dialética. Só há um discurso acerca de um presente, não acerca de um passado. Significa dizer que a autoconsciência do herói precisa de um constante dialogismo para sempre instituir o sujeito inacabado. A essência humana está frequentemente sendo questionada. O homem, portanto, é um tu, não um eu ou um ele.
Haja vista essa pequena noção da forma composta da narrativa dostoievskiana, chegamos ao ponto mais importante do presente comentário: a teoria da carnavalização. E para início de diálogo, faremos a ponte entre ela e o psicologismo antes discutido, uma vez que em Os irmãos Karamázov há passagens de forte destronamento, bem como a inversão da ordem das coisas, dentre outros mecanismos propostos.

A arte de carnavalizar tem sua origem na Idade Média com alguns festejos que lembravam O Dia dos Bobos, por exemplo, questionando a hierarquia, a ordem pública, os hábitos e as funções administrativas de maneira geral. O problema do carnaval é que se trata de uma forma sincrética de espetáculo de caráter ritual, impossibilitando que se trabalhe a complexidade de sua linguagem de variadas formas sem se fazer antes uma transposição para a literatura, isto é, para a linguagem verbal da qual esta faz uso. Daí, ter que se realizar a Carnavalização da literatura.

A partir do momento em que se vive o carnaval, todas as proibições e as leis deixam de funcionar para garantir a padronização do sistema hierárquico. Com isso, as diferenças de classes, surgidas com as desigualdades, desaparecem, e todos passam a ser iguais. Um novo modelo de relações mútuas hierárquico-sociais da vida extracarnavalesca liberta o compromisso com a ordem imposta e faz vir à tona qualquer tipo de reação humana, escondida no inconsciente. Verificamos tal aspecto em Os irmãos Karamázov, na cena do odor do cadáver do Stárets Zózima. Todos o consideravam um ser divino, contudo o estado de putrefação instantânea causa o destronamento simbólico:



O fato é que o ataúde começou a exalar um odor deletério, que foi aumentando. Seria inútil procurar nos anais de nosso mosteiro um escândalo semelhante àquele que se desenrolou entre os próprios religiosos logo após a comprovação do fato e que teria sido impossível em outras circunstâncias. Muitos anos depois, alguns deles lembrando-se dos incidentes daquele dia, perguntavam a si mesmos com horror como o escândalo pudera atingir tais proporções. [...] A tradição dizia que aqueles dois personagens jaziam nos seus ataúdes como se estivessem vivos, que os tinham enterrado intactos, que seus rostos estavam de certa forma luminosos. Outros relembravam com insistência que seus corpos exalavam um odor suave. (DOSTOIÉVSKI, 2005, p.337-338)



Por aí se vê que a ação carnavalesca mais usada foi a da coroação bufa e do posterior destronamento. O stárets era tomado qual um santo, e seu estado mortuário rompeu com a visão sacrossanta dos sacerdotes ortodoxos. Desde cedo, assim, tem-se o destronamento significando uma ambivalência de sentidos do tipo coroação-destronamento. É relevante ressaltar tal processo dentro de uma relatividade funcional, porque o carnaval, simbolicamente falando, é a mudança do poder e da Ordem das coisas.

Ainda ligado ao conceito da carnavalização está o do riso carnavalesco. É dele e de suas ideias de morte, renascimento, negação e afirmação que originam o ideário de paródia. Esta tem caráter ambivalente, uma vez que mostra o duplo destronante do mundo às avessas. Isso lembra um pouco os diálogos socráticos: discussões em torno de um determinado tema, quase sempre levando os personagens a reverem suas concepções de mundo por meio da renovação-destronamento. Consequentemente, em vez de se gerar uma situação de natureza épica, com a glória do herói na narrativa literária, teremos uma tentativa de humanização, que configura a mobilidade da vida do mesmo. Isto quer dizer: um duplo ambivalente quanto à imagem heróica. É o que acontece com Dimitri Karamazov, por exemplo, na cena do seu interrogatório, em que as atitudes mecânicas do procurador e do juiz, muito embora demonstrem a existência de um Dimitri inferior após a suspeita de sua própria culpabilidade, também provocam a nascente do riso reduzido:



  E o pilão?

  Estava na minha mão.

  Não estava no seu bolso? Lembra-se desse detalhe? O senhor deve ter golpeado de alto.

  É provável. Por que essa observação?

  O senhor quer colocar-se sobre sua cadeira como estava então na paliçada, para nos mostrar exatamente como e de que lado o senhor golpeou?

  Será que não está zombando de mim? perguntou Mítia, olhando de alto a baixo o procurador; mas este não fez nenhum movimento. Mítia pôs-se a cavalo sobre a cadeira e levantou o braço:

  Eis como golpeei! Como matei! Estão satisfeitos?”(DOSTOIÉVSKI, 2005, p.471)



Observamos, assim, a paródia do método de investigação policial, conduzindo a figura dos tipos humanos aí representados em bobos e bufões na iminência de sofrerem o rebaixamento cômico. A conseqüência disso é o efeito risível, pois ao mesmo tempo em que o homem é comparado ao animal e passa-se a pensar nele como ser primitivo e retrógrado pela sociedade moderna, visualiza-se a desproporção em ser humano ou em ser irracional. Contradições bem marcantes.
Considera-se também no estudo da carnavalização a menipéia, ou seja, a sátira menipeia. O que basicamente sustenta esse gênero é o seu lado sério-cômico. O objetivo da menipéia é promover a constante atualização do mundo, já que este deve ser visto como inacabado, passível de várias releituras. Os métodos utilizados pelos magistrados da cena anterior são questionados e invalidados pelo narrador com base no princípio de origem medieval aqui explicado. Tanto isso é verdade que Dimitri compactua com a invalidez do método investigativo da Justiça, exagerando nos detalhes do crime durante o depoimento.

Aí entra a questão do inferno carnavalesco. Enquanto o paraíso, segundo a tradição cristã medieval, é tido qual o lugar de glória pelo herói épico, o presente por sua bravura em vida, as trevas representam a queda do mesmo. Mas no caso da sátira menipeia, o inferno policia a consciência humana quanto à necessidade de sempre reconhecer o inacabamento do ego e a freqüente renovação como ser integrante do contexto social vigente. Não é à toa que no romance dostoievskiano os capítulos referentes ao interrogatório do acusado são intitulados: “O primeiro purgatório”, “O segundo purgatório” etc. O processo de morte e nascimento com vias à atualização parece virar um ciclo.

O mesmo costuma ocorrer no episódio do jogo de cartas. Nele, vê-se a simbologia da lucidez e da loucura. O que aparenta ser uma partida de baralho, em que as regras estabelecidas serão respeitadas, acaba virando um desregramento, consubstanciado no delírio de Dimitri. Dostoiévski consuma perfeitamente a carnavalização com ritos ora profanos, ora apocalípticos ao longo de todo o texto.

Paulo Caldas Neto.
 BIBLIOGRAFIA:

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Os irmãos Karamázov. Trad. Natália Nunes e Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. 3.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

VIOLA SERTANEJA

                                                                          
Aquele que tem a curiosidade de investigar o conteúdo da escrita do autor de Auto da Compadecida, dentre outras peças, observa uma peculiaridade por muitos encarada como a raiz da cópia ou do plágio, porém, responsável pela emergência de uma nova estética da produção do Nordeste: a arte armorial.

A esteira mais respeitável está na maneira de manipular-se a citação no texto: ao mesmo tempo a súmula de uma antologia e recriação de toda uma memória cultural. Reunir todo esse conhecimento em um só trabalho é um projeto ambicioso e original por atribuir uma série de significados, paráfrases, citações, tornando a fronteira entre respectivo gênero e outro quase ambígua. A origem do texto citado no interior da escrita armorial pouco importa; mas as relações entre os citados e o citante, dentre todos os tipos de repetição de um discurso em outro. A citação é a metodologia mais simples ao lado do provérbio, discurso direto ou indireto, imitação, cópia, réplica, pastiche, fonte, influência, comentário etc. [1]

Conseguindo-se delimitar limites e espaços, nos quais existem tanto as enunciações de outrem quanto as suas próprias, chega a um ponto em que a avaliação isolada gera a predominância de uma delas. E aí entra em cena um processo de repetição chamado interpretância. Nele, interpretante e interpretável prepararam uma cadeia de interpretações. Praticamente, o teatro armorial de Ariano Suassuna a acolhe, criando a epopéia do sertão, com um conjunto de estórias e signos pela voz poética de seus personagens. Sabe-se que por ser Auto da Compadecida a peça mais conhecida, muitas são as intromissões, principalmente da literatura de cordel, já que o armorial aspira à reescritura do Erudito a partir do Popular. Há pela boca de João Grilo, por exemplo, os acordes da cantiga de Canário Pardo, todas as vezes que evoca a Compadecida, além de, no decorrer das cenas, deparar-se o leitor/espectador com a presença dos folhetos “O Castigo da Soberba”, do Romanceiro Popular do Nordeste, “O Enterro do Cachorro” e a “História do Cavalo que defecava dinheiro”. Todas elas pertencentes à literatura oral e imortalizada no Erudito por Suassuna. Não escapam dessa seqüência as outras linguagens do Campo da arte como o mamulengo, a dança e a música, com forte atuação da cantoria popular ao som do pífano e da rabeca. A Pena e a Lei é uma peça em que existe a maior representação desses últimos elementos reunidos e o completo exibicionismo da vocalidade na prática do oral no escrito.

Por falar em vocal, é simplória e conexa a atividade mediadora que a voz perfaz na modalidade da escritura medieval, adotada por Ariano. Tudo porque é visível o perfil heterogêneo da cultura da Idade Média, já, algumas vezes, vista como um círculo de pensamento fechado. O hibridismo cultural passa a ser a mancha. E de acordo com a técnica da citação, a palavra se classifica em várias categorias, ora podendo no texto se degradarem, ora se combinarem sem previsibilidade. É claro que o fenômeno lingüístico da estrutura dos vocábulos varia em todos os seus traços (fonética, morfologia, sintaxe, semântica) com o passar dos tempos, afetando a criação literária. Só é inesquecível o argumento de que foi a partir da língua vulgar que as poesias começaram a ser escritas e os modelos latinos a obterem formas. Quem nos explica é Zumthor (1993, p. 118) [2]:



As pesquisas recentes sobre a hagiografia, a epopéia e ‘o romance’ mostraram a importância e a riqueza da dupla corrente de intercâmbios entre o que nos aparece como um folclore e a cultura do ‘Cleres’ desse tempo; o resultado de tais interferências é quase sempre uma mutação qualitativa; e se poderia ver na multiplicação desses fatos um dos elementos de certo estilo de época, caracterizando os anos de 1050 a 1300. É desse ‘ estilo’ que emerge a conservação de formas da arte vocal, às vezes muito elaboradas, sob o próprio regime da escritura.

Examinar a necessidade de uma expressão verbal no âmbito da escritura armorial de Suassuna é solo fértil à descoberta de diretrizes puramente sertanejas. Bem mais direcionadas para rememoração da cultura nordestina e as fontes de uma linguagem típica desse setor geográfico que ainda tem muito que nos mostrar. Não mentem os linguistas, semiologistas e estudiosos de maneira geral ao afirmarem que toda forma de dizer e escrever se modifica com a história, e os arcaísmos, estampados em etapas, postos a quem quiser vislumbrar. Cada povo se responsabiliza por suas tradições e rituais a auxiliarem os mitos e lendas brasileiras, atualizando a historiografia, que só fica viva graças à memória popular. Porque a criação oral, sempre recriada, é adepta a qualquer extrato poético, compreende desafios aos que interpretam e aos que produzem. Agindo diretamente no cerne do texto, uma discussão acaba se propagando, conforme se explicou, a respeito das transações do Erudito com o Popular em que delas se tira a possibilidade de novos esboços, diminuindo ou extinguindo dicotomias.

Paulo Caldas Neto.

[1]  Cf. SANTOS, Idelette Muzart Fonseca dos. Em demanda da poética popular: Ariano Suassuna e o Movimento Armorial. Campinas, SP: Unicamp, 1999. (Viagens da voz)
[2]  ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: A “literatura” medieval. Trad. Amálio Pinheiro; Jerusa Pires Ferreira. SP: Companhia das Letras, 1993.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Indecisão

C

onversando com meus amigos um dia, lembrei algo muito sério. Por coincidência, o que pensei fora posto em prática. Não imaginava que seria capaz disso, todavia aconteceu. Estávamos discutindo a respeito da nossa boa vocação... Quem diria?! Logo pessoas como nós ¾ adolescentes ¾ analisando um assunto como esse. Mas já era de se esperar. Bem, vamos direto ao que queremos expor. Cada um ia dizendo a profissão que exerceria para o futuro. Fiquei quieto por um tempo refletindo o que se sucedia até que fui interrogado com a seguinte pergunta:

¾ O que tu serás?

¾ Não sei.

¾ Como não sabe?

¾ Tenho dúvidas ainda ¾ respondi.

No instante, tive um pouco de vergonha e manifestei-me recluso, porém, contive-me. Entreguei-me a meus pensamentos sobre o diálogo anterior e decidi investigá-lo com prudência, a fim de conseguir alguma solução para minhas incertezas. Fui até um ponto comercial(ao sair de casa, minha mãe pediu que eu comprasse um lata de atum), e em seguida voltei à minha morada. Primeiro, recordei-me da conversa, depois fui analisando com bastante cautela o ocorrido. Passei horas executando essa tarefa e logo imaginei:

¾ Será a Medicina o meu futuro?

Depois pensei, “Não seria bom”. E assim continuei todo o tempo refletindo. Cheguei até a iludir-me com bobagens, mas isso passou. Pedi uns conselhos a meus pais, e eles me sugeriram a área de Ciências Humanas ou então a profissão de professor. Achavam que seria natural ter um filho mestre-escola. E que naturalidade! Um filho mestre-escola! É inconveniente, jamais alguém deixaria de humilhar ou desprezar um mestre-escola...Mas meus pais não permitiriam!...Não, eles não poderão proteger-me por toda a eternidade e também como irei viver com um salário tão baixo! Que tal advogado!...

Saí de casa. Caminhei muito pela calçada, desci à rua lateral até a minha residência e segui pela outra rua principal o meu destino. Estava lúcido. As ideias voavam como as folhas de Outono ao vento. Policial! Exatamente, é uma atitude nobre, porém humilhante. Pedagogo, talvez. Já sei, Músico, eu gosto de uma boa música!...Assim que o pensamento cessou, nem havia percebido que estava junto a um banco da praça da cidade, onde acabei me sentando para descansar. As horas iam-se correndo, e eu ficava imaginando aquele assunto, à minha cabeça afloravam novas visões do meu futuro acompanhadas de vários outros juízos. Enquanto me ocupava com minha mente, meus ouvidos insistiam em captar certos ruídos que varriam o silêncio daquele lugar tranquilo, acrescentando-os como uma nova companhia aos pensamentos do meu cérebro. Esses ruídos Blim! Blam! Blim! Blam! foram úteis para acelerar a  difícil decisão que tomara. Levantei-me e dirigi-me até o meu lar.

Entrei em meu quarto, deitei-me, dormi. Acordei, de manhã, e fui ao encontro de meu pai e minha mãe. Sei que ficarão surpresos, mas não voltarei atrás, eles precisam me entender. Finalizavam um diálogo com alguns amigos quando cheguei. Despediram-se deles, e eu avisei-lhes que necessitava ter uma conversa com ambos. Corado, contei-lhes claramente o meu problema e não hesitaram em descobrir o que decidira.

¾ Sinto muito sobre o que irei revelar-lhes, mas é o que desejo.

¾ Diga-nos, qual será a profissão que você irá seguir, filho? ¾ interrogou-me papai.

Preparei bem as palavras:

¾ Eu pensei muito e cheguei à conclusão de...

¾ O quê?

Alguma coisa me impedia de prosseguir, faltou-me voz. Tentei buscar o som vocal, no entanto, parece que a força da razão foi mais ágil. Muito bem, veremos agora quem é mais forte! Após o momento de mudez, repliquei:

¾ Bom, eu...É...Eu serei Padre.

¾ Padre?! ¾ foi a reação (também outra é que seria um espanto).

¾ Mas meu adorado filho, Padre, por quê?

Procurei um motivo para não mencionar algo errado e achei: o trabalho era mais encantador e gratificante. Inventei uma porção de outras razões, não encontrei palavras que explicassem a decisão.

¾ Ah, minha mãe! Já falei que é este o meu destino: ser um membro da Igreja.

A admiração não puderam conter. Para eles era impossível encontrar alguma explicação e aceitar tal fato. Voltei ao meu quarto, não estava arrependido do que fizera, por que estaria? Com essa atitude todos podem dizer que há coisas que o coração ordena, e que devemos repelir, mas serão seguras também as que a razão ordena? Calei-me diante desse enigma.

Paulo Caldas Neto.